URGENTE! Diversidade de Acções para Cuidar a Biodiversidade



Esta apresentação insere-se no tema geral do conceito e da ética do “Cuidar”, tratando-se aqui de cuidar da e cuidar o futuro do Terra.

Apresentada no Ciclo de Conferências “A Dimensão do Cuidar na Re-Significação do Espaço Público”, organizado pela Fundação Cuidar O Futuro,  a 25 Junho 2009, no Centro Nacional de Cultura.

Os conteúdos desta apresentação serão focados na situação actual da a nível global; Políticas na Europa; Acções de carácter voluntário; Acção das ONGs; Cuidar da noutras dimensões; Iniciativas locais e ainda um exemplo concreto, o caso do projecto Bio-local.

Comecemos pela definição de biodiversidade ou diversidade biológica. A diversidade biológica é o número, variedade e variabilidade de organismos vivos. O conceito inclui diversidade intra-específica ou dentro da espécie (diversidade genética), inter-específica ou entre espécies (riqueza de espécies), e entre .

Estudos recentes mostram que as espécies se estão a extinguir a uma taxa entre 100 a 1000 vezes superior ao normal (ou seja, comparativamente aos dados dos registos fósseis) sobretudo devido a factores directa ou indirectamente associados à acção humana.

Ao olharmos para o estado actual da biodiversidade, através dos dados da Análise do Milénio sobre Ecossistemas (MA) – Biodiversidade (2005), verificamos que os factores mais importantes de perda de biodiversidade e alteração dos serviços dos ecossistemas são as alterações no habitat, como por exemplo alterações no uso do solo, modificação física e drenagem de água dos rios, perda de recifes de corais, danos em fundos marinhos devido a arrastões; as alterações climáticas, que já começaram a ter impacto por exemplo nos anfíbios; a introdução de espécies exóticas invasoras que competem por recursos com as espécies locais; a exploração excessiva com destaque para a pesca; e ainda a poluição.

A Biodiversidade está hoje a decair rapidamente, na União e em todo o Mundo. Apesar de aproximadamente 18% da superfície da União estar classificada como Rede Natura 2000, as paisagens estão a mudar, com impactos nas espécies e ecossistemas. Muitas espécies nativas estão ainda ameaçadas, incluindo 42% dos mamíferos, 15% das aves, 45% das borboletas, 30% dos anfíbios, 45% dos répteis e 52% dos peixes de águas interiores. 700 espécies Europeias estão ameaçadas, enquanto o número de espécies exóticas invasoras na região pan- continua a aumentar (dados da Agência de Ambiente, na sua última avaliação pan-)

Globalmente, este declínio é uma das mais graves ameaças ambientais, comparável às alterações climáticas e à degradação dos solos. O relatório internacional Millenium Ecosystem Assessment (MEA) divulgado em 2005, fez um inventário dos ecossistemas do mundo e as principais conclusões foram: “Muitos ecossistemas estão em claro declínio, com consequências de longo alcance para a humanidade (…) Algumas poderão ser mitigadas, mas apenas se houver alterações significativas nas políticas, nas instituições e nas práticas”.

Na União Europeia, muitas das respostas políticas identificadas pelo MEA (2005) estão em curso, sob a forma de legislação: A Directiva Habitats, a Directiva Aves, a Directiva Quadro da Água e a Avaliação Ambiental Estratégica e Avaliação de Impacto Ambiental, que provaram ser importantes factores de mudança. Porém, estas Directivas são frequentemente implementadas de forma fraca ou incipiente e os seus requisitos não são efectivamente impostos. Ora, esta deveria ser a prioridade máxima.

Na Primavera de 2006, sob a Presidência Irlandesa, a Comissão Europeia publicou a Comunicação “Halting the loss of by 2010 – and beyond; Sustaining ecosystem services for human well-being”. “Travar a perda de biodiversidade” passou a ser um lema adoptado não só na Europa, mas também noutras instâncias internacionais ligadas ao ambiente.

A partir dessa Comunicação foi elaborado um Plano de Acção, com objectivos prioritários: Proteger as espécies e os habitats mais importantes; Actuar nas paisagens rurais e ambiente marinho; Tornar o regional mais compatível com a Natureza; Reduzir os impactes das espécies exóticas invasoras; Promover uma melhor governação internacional; Apoiar a biodiversidade num contexto internacional; Reduzir os impactes negativos do comércio internacional; promover a adaptação às alterações climáticas; Ampliar as bases de conhecimento.

No contexto desse Plano de Acção foram identificadas 4 medidas de suporte adequado: Financiamento adequado; Reforço das decisões a nível Europeu; Estabelecimento de parcerias e promoção da educação pública; Sensibilização e participação.

Neste contexto, em particular no âmbito do estabelecimento de parcerias, durante a Presidência Portuguesa da União Europeia em 2007, surgiu da parte do governo português a ideia de lançar uma iniciativa voluntária que se designou por Business & Biodiversity, apresentada numa Conferência oficial em Novembro de 2007 em Lisboa. Esta iniciativa visa envolver o sector empresarial nos esforços para minorar os impactes na natureza e biodiversidade e tem já a adesão de várias empresas portuguesas, mas não atingiu ainda uma dimensão europeia, apesar de outros países terem também aderido.

As organizações não governamentais estiveram também atentas a esta iniciativa, começando pela Quercus, que foi interpelada pela Fundação Cuidar o Futuro para co-organizar um evento internacional sobre o tema, que aconteceu em Lisboa, antes do evento oficial, em Setembro de 2007. A Quercus, com outras ONG europeias, produziu em Outubro desse ano uma posição pública com 10 pontos referindo em que moldes esperava que essas parcerias para a biodiversidade fossem estabelecidas, dando conhecimento dessa posição às instâncias nacionais e europeias. Com ONG da Alemanha e Eslovénia, co-organizou ainda alguns encontros sobre esse tema na Eslovénia e Alemanha, cujos resultados se podem consultar em www.business-biodiversity.eu.

Outras organizações na Europa estão também activamente a trabalhar sobre esta questão do envolvimento das empresas, nomeadamente a CEE Web for Biodiversity na Hungria, a Birdlife, o WWF e numa perspectiva de pressão e posições políticas, o Greenpeace, o EEB, etc. O link www.countdown2010.net contém uma lista de todas as iniciativas que estão a ser realizadas por entidades como governos, câmaras municipais e empresas, entre outras.

Também a 9ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica, das Nações Unidas Bona, o maior encontro mundial sobre biodiversidade, que decorreu em Maio 2008, integrou esta temática do envolvimento das empresas. Em Barcelona, em Outubro do ano passado, durante o Congresso Mundial do , a maior organização mundial para a conservação da natureza, deu-se bastante destaque para a questão da valorização dos serviços dos ecossistemas e também para a participação das empresas na preservação da biodiversidade.

Num contexto mais alargado de envolvimento de outro tipo de organizações, poderíamos referir-nos aqui às organizações que mais directamente lidam com a transmissão deliberada de valores de ética e de moral. Como é vista a questão da conservação da natureza e Biodiversidade pelas diversas religiões e seus líderes? Por exemplo, na religião cristã, a Biodiversidade e o Planeta Terra são vistas como criação de Deus ao cuidado do Homem. As denominações evangélicas têm desenvolvido algum trabalho interessante, em termos de interligação com as temáticas ambientais, com experiências interessantes e aqui estou a lembrar-me por exemplo de uma igreja evangélica que implementou um sistema de gestão ambiental, o que normalmente é mais habitual nas empresas. Passando para o budismo, por exemplo, o líder tibetano Dalai-Lama, apelou directamente para uma alteração de costumes, no sentido de os próprios tibetanos evitarem o desaparecimento do Tigre de Bengala, deixando a tradição de usar peles dessa espécie em rituais festivos. Mas muito falta fazer e é minha opinião que os sistemas religiosos podem contribuir de forma significativa para a questão ambiental, pois são eles que formam os indivíduos em muitas das suas escolhas, através dos valores ou critérios próprios de cada religião e os líderes estão em contacto muito frequente com os seus fiéis.
No caso da religião cristã, creio que seria muito interessante aprofundar de um ponto de vista teórico as potenciais ligações entre um dos principais mandamentos – o amor ao próximo – com a questão do amor às próximas gerações. De facto, o conceito de cuidar o planeta para as próximas gerações integra o conceito e a definição globalmente aceite de desenvolvimento sustentável. Não esperando que as religiões se deixem instrumentalizar por qualquer tipo de campanhas, creio que é importante haver um envolvimento dos grandes líderes mundiais, pois são eles que emanam orientações que são tidas em conta em todos os países.

Descendo a um nível mais prático, gostaria agora de destacar iniciativas de âmbito local, nomeadamente a LAB – Local Action for Biodiversity, projecto que consiste em mobilizar as autarquias para fazerem o seu próprio plano de acção para a biodiversidade, para além naturalmente do cumprimento da legislação de cada país. No site http://www.iclei.org/ encontramos uma lista com muitos municípios que aderiram e que têm experiências interessantes, sobretudo no que toca à biodiversidade que existe nas cidades e em volta delas.

Particularmente, poderia apresentar-vos um caso que conheço melhor, do envolvimento de uma autarquia nesta área da biodiversidade, por estar directamente envolvida. O Bio-Local – Diversidade de Acções Locais para a Biodiversidade é um projecto que pretende sensibilizar vários públicos para a biodiversidade, agregando várias iniciativas, sob as temáticas seguintes: Biodiversidade local e regional; Consumo, alimentação e biodiversidade; Importância da Biodiversidade agrícola

Trata-se de um projecto desenvolvido pela Câmara Municipal da Moita, envolvendo parcerias com a Quercus ANCN; a Colher para Semear – Rede Nacional de Variedades Tradicionais e a FENACOOP – Federação Nacional das Cooperativas de Consumidores. Foram envolvidas 8 turmas de crianças, de uma escola do 2º e 3º ciclos e de um ATL/Jardim de Infância.

Ninguém protege o que não conhece, por isso é importante conhecer a biodiversidade local e regional. Nesse sentido fez-se no primeiro período lectivo uma visita à zona ribeirinha do concelho da Moita, que se estende desde a freguesia de Sarilhos Pequenos até à Baixa da Banheira, passando por Gaio-Rosário, Moita e Alhos Vedros. Apenas o Vale da Amoreira não tem actualmente zona ribeirinha.

Uma segunda saída de campo foi dedicada especialmente aos Invertebrados e Peixes do Estuário do Tejo, no Rosário, destacando a importância dos invertebrados na base da cadeia trófica do estuário.

Mostra-se uma ostreira do Neolítico, encontrada no ano passado por arqueólogos na freguesia do Gaio-Rosário, demonstrando a ligação directa dos recursos faunísticos locais e desta espécie em particular com a presença do Homem. As ostras do Tejo desapareceram devido à poluição, mas prevê-se que venham a reaparecer quando as águas forem tratadas pelas Estações de Tratamento de Águas Residuais, agora em construção.

Foi também realizada em Maio e Junho uma 3ª Saída com os alunos, dedicada às Aves e seus Habitats, que incluiu uma visita às salinas em Alcochete, um caso de meio humanizado que não obstante, pode ser gerido de forma a ser benéfico para a avifauna.

A segunda vertente do projecto incidiu no tema “biodiversidade e consumo”, em particular de produtos alimentares. Fizeram-se actividades nas lojas da Pluricoop, uma cooperativa de consumidores, com as “Lições do consumidor” sobre Biodiversidade; um inquérito aos utentes das lojas sobre conhecimentos ambientais, critérios de escolha e hábitos de leitura de rótulos e selos de certificação; distribuição de folhetos e fez-se também um levantamento dos produtos e marcas existentes nas lojas, para aferir da existência de produtos com potenciais impactes na biodiversidade.

As cooperativas de consumo na Europa têm um desenvolvimento muito diferenciado conforme os países, mas destaca-se o caso da França e Itália, onde o peso do sector no mercado retalhista é significativo. A Itália leva de facto um bom adiantamento, com iniciativas concretas no sentido de diminuir o impacte de alguns produtos sobre a biodiversidade. Por exemplo, várias lojas retiraram das suas prateleiras todas as latas de atum vermelho do Mediterrâneo, uma espécie em vias de desaparecer, e além disso decidiram apresentar para venda atum cujos métodos de pesca estejam certificados como sendo seguros para os golfinhos, que normalmente sofrem grande mortalidade na pesca convencional do atum. Naturalmente que estes critérios e outros de carácter ambiental deveriam ser o mais divulgados possível, pelo que o ideal seria que a confederação europeia de cooperativas, a Eurocoop, impulsionasse também as mudanças necessárias.

A terceira vertente do projecto focou-se na Biodiversidade Agrícola. Porque é importante não restringir a nossa dieta alimentar a meia dúzia de variedades? Porque é importante manter a paisagem com biodiversidade em vez de monoculturas? Porque é importante preservar as sementes das variedades rejeitadas pelos mercados, que se têm concentrado em vender frutos e legumes capazes de resistir ao frio das arcas frigoríficas, mas talvez com menos sabor, e menos conteúdo nutricional? Estas questões foram discutidas numa escola do 2º e 3º ciclos e numa escola secundária, com o apoio da associação Colher para Semear, que se dedica à colecta de sementes de muitas variedades e à sua preservação, não congeladas num banco genético, mas sim vivas, nas hortas de pessoas individuais por todo o país. Assim preservadas na terra, nos hábitos alimentares, à mesa das pessoas, elas permanecem também mais vivas, perto do olhar e do coração das pessoas. Por isso, os alunos não se ficaram pelas palavras, mas contribuíram plantando em ambas as escolas hortas com variedades regionais, para que a escola seja também guardiã da biodiversidade agrícola.

Para além do Bio-local, o Município da Moita também tem promovido outras iniciativas indirectamente ligadas à biodiversidade agrícola, como é o projecto Agricultura Biológica e Compostagem nas Escolas desde 1999; o Mãos à Horta – curso de formação dos munícipes sobre como fazer uma horta biológica e compostagem nos quintais e por último a Biofesta – Mostra de projectos e produtos biológicos desde 2005.

O projecto Agricultura Biológica e Compostagem nas Escolas realiza-se ao longo de praticamente todo o ano lectivo e inclui módulos de Compostagem de resíduos orgânicos; Preparação do terreno e sementeira; Plantação com variedades regionais; Luta biológica e finalmente a Prova de produtos.

Outros programas educacionais, promovidos por ONGs, como o programa Eco-Escolas e o Coastwatch, que a autarquia da Moita e muitas outras no país têm apoiado, também têm uma componente na temática da biodiversidade. Apresento imagens de materiais usados na comemoração do Dia Mundial do Ambiente – 5 de Junho, na Moita, que neste ano foi dedicada ao ambiente na zona ribeirinha, incluindo a biodiversidade.

É portanto possível envolver, de formas diferentes, entidades muito diversas neste esforço urgente de travarmos a perda de biodiversidade, numa óptica de cuidar o presente e o futuro do planeta Terra.

About the author

Paula Lopes da Silva Graduated in Biology, with training in Quality and Management. Project coordinator at Quercus ANCN. Civil servant at Moita Municipality. Environment activist, ex-board member in national and european NGOs. Also interested in good governance, transparency and accountability of NPOs. Likes history and historical recreation, drawing, cartooning and performing. Roman Catholic.

GD Star Rating
a WordPress rating system
Be Sociable, Share!

Note: this article was last updated in February 2nd, 2010

3 Comments to “URGENTE! Diversidade de Acções para Cuidar a Biodiversidade”

  1. gumelo 27 April 2010 at 21:20 #

    Estamos em situação complicada no Brasil, o pais cresce muito e em contra partida cobra seu preço da natureza, a hidroeletrica que vai ser construida no Xingu é uma mostra disso! O que resta é fazer nossa parte protestando e divulgando a importancia do equilibrio ambiental e da biodiversidade.

    GD Star Rating
    a WordPress rating system
    GD Star Rating
    a WordPress rating system
  2. car cleaning services 25 July 2013 at 18:28 #

    Hi there, i read your blog from time to time and i
    own a similar one and i was just wondering if
    you get a lot of spam remarks? If so how do you stop it,
    any plugin or anything you can recommend?

    I get so much lately it’s driving me insane so any assistance is very much appreciated.

    GD Star Rating
    a WordPress rating system
    GD Star Rating
    a WordPress rating system
  3. Lopo Lencastre de Almeida 26 July 2013 at 19:24 #

    Check at WordPress.org. There are a few good ones and I think it is just a matter of taste.

    GD Star Rating
    a WordPress rating system
    GD Star Rating
    a WordPress rating system

Leave a Reply