LEALDADE E FEUDALISMO

"In it’s your vote that counts; In it’s your count that votes." - Mogens Jallberg

Actualmente se alguém não concorda com um sistema em que está inserido, seja uma colectividade, um partido político ou outra unidade organizacional de indivíduos, é comum não reagir e deixar andar, para não ferir susceptibilidades, para não haver chatices e por lealdade pessoal a alguém. Que me contradigam os sociólogos que este é um modus operandi típico das brandas gentes lusitanas.

Para mim, o pior inimigo da verdadeira é a cultura de um . Pode instalar-se um sistema político ou estatal de raíz, transparente, ético, plural, democrático, justo, enfim limpo. Mas se a cultura de um estiver recheada de “amigismos”, lealdades e respeitos pessoais, “tribalismos” e nepotismos, não restará qualquer esperança à dita , que mais ou menos rapidamente se tornará uma criatura em vias de extinção, ou pior numa caricatura da .

Na verdade seremos talvez ainda feudais. O , que teve certamente uma função estruturante das sociedades num longo período da história, baseia-se na lealdade a um senhor. E a lealdade é uma coisa bela em si. Mas não a lealdade cega, não necessáriamente a lealdade a uma pessoa, vá ela por onde vá. Vá ela por maus caminhos.

A lealdade no feudalismo pressupõe um sistema de atribuição de favores – que infelizmente cada vez é menos uma coisa do passado! Ao contrário, a democracia pressupõe um sistema de justa distribuição de direitos, incluindo o de participação nas decisões. É por isso que acho que a lealdade não deverá ser o mais importante na democracia.

Para mim a lealdade é um valor que, admito, nunca teve muita importância. A Honestidade, a , a , sim. A lealdade a uma pessoa, a um sistema, pode comprometer o amor ao , a um bem muito maior e muito mais duradouro, que vale a pena construir.

Se continuarmos neste feudalismo, nepotismo e protecção tribalista, seja ela de que tipo for, então não muda!

About the author

Paula Lopes da Silva Graduated in Biology, with training in Quality and Management. Project coordinator at Quercus ANCN. Civil servant at Moita Municipality. Environment activist, ex-board member in national and european NGOs. Also interested in good governance, transparency and accountability of NPOs. Likes history and historical recreation, drawing, cartooning and performing. Roman Catholic.

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Note: this article was last updated in October 13th, 2010

5 Comments to “LEALDADE E FEUDALISMO”

  1. Rui BG 13 October 2010 at 16:46 #

    Cara Paula Lopes da Silva,
    Li o seu post que achei bastante interessante, a começar logo naquela frase genial que ainda desconhecia. No entanto não subscrevo o seu ponto de vista quanto a vivermos num “feudalismo”.
    O nosso problema não é nem nunca foi “lealdade ao senhor”, a menos que o senhor seja o próprio individuo.
    O verdadeiro problema de que enferma a nossa sociedade é um problema que assenta em duas características bem humanas: egoísmo e egocentrismo. Isto apesar de durante o período do “Estado Novo” termos vivido de facto uma situação que configurava a por si descrita, com uma tentativa de imposição desta “lealdade ao senhor” que deixou mesmo marcas nas gerações mais velhas.
    O 25 de Abril trouxe o bolo rei da “liberdade”, só que lá dentro em vez do tradicional brinde vinha uma gigantesca “fava”. A falta de liberdade durante tantos anos levou ao consumo exagerado da mesma, mesmo muito para além do razoável e que é a zona em que a nossa liberdade pisa a liberdade do outro. Disseram-nos que a “liberdade” e a “igualdade” eram os valores supremos de uma sociedade, inscrevendo-os até na Constituição, no entanto esqueceram-se que esses dois fazem conjunto com um terceiro: a “fraternidade”. E a fraternidade assenta no princípio do respeito pelo outro e pelo reconhecimento da sua existência.
    Concordo portanto consigo no aspecto em que nos falta o sentido do “colectivo”, no entanto ele falta pelo extremar do individualismo na nossa cultura e não pela lealdade ao senhor.
    A título de exemplo veja o que se passa no seio dos partidos políticos, em que a suposta lealdade ao senhor só existe até ao momento em que este expõe as costas aos “súbditos”, chovendo desde logo as facadas.
    Num sistema de lealdade ao senhor é normal serem acatados os desígnios do mesmo na escolha do seu sucessor, mas quando Durão Barroso deixou a liderança do partido e deixou Pedro Santana Lopes no seu lugar, em vez de lealdade ouve muita oposição. E isto repete-se em qualquer partido de forma mais ou menos evidente, dependendo do grau de liberdade existente no seu seio.
    Isto só acontece porque cada um está apenas preocupado com os seus próprios interesses pessoais e não com os da organização social em que está inserido, seja ela qual fôr: partido político, clube de futebol, associação recreativa, empresa, Estado, etc.
    A lealdade é um valor extremamente importante e que me preocupa sobremaneira, no entanto percebo o seu ponto de vista porque ele é orientado para o indivíduo. A lealdade exacerbada para com indivíduos é doentia, no entanto a lealdade a causas concretas que assentem no bem comum é algo que na dose certa não só é positivo como pode ser potenciador da tão necessária mudança.
    Uma vez que também tem as mesmas preocupações e que também está no facebook, convido-a a passar pelas páginas das petições da “Redução dos Deputados na Assembleia da República” e dos “Círculos Uninominais”, a primeira das quais já com 64.000 assinaturas, e em volta das quais se têm concentrado muitos, como eu ou a Paula que ainda acreditamos na mudança.
    Cumprimentos
    Rui BG 🙂

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  2. Lopo Lencastre de Almeida
    Lopo Lencastre de Almeida 13 October 2010 at 18:38 #

    Caro Rui

    “A título de exemplo veja o que se passa no seio dos partidos políticos, em que a suposta lealdade ao senhor só existe até ao momento em que este expõe as costas aos “súbditos”, chovendo desde logo as facadas.”

    Mas o feudalismo sempre foi assim. As lealdades regulavam-se pelos interesses pessoais dos subditos e dos suseranos; enquanto os mesmos fossem confluentes reinava a harmonia.

    O nascimento de Portugal é disso o exemplo acabado.

    Já no que concerne à redução do número de deputados eu acho que é uma grossa asneira se, simultâneamente, não se mudarem as regras eleitorais e o uso do método de Hont. A reduzirem-se simplesmente os deputados só se irá acentuar o peso dos partidos maioritários e eliminar os partidos das franjas políticas; e isso, a meu vêr, é altamente pernicioso.

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  3. Rui BG 13 October 2010 at 19:09 #

    Concerteza que sim. Mas no feudalismo medieval a obediência ao senhor era imposta pela força, sendo os castigos fisícos, exemplares e muitas vezes brutais, o que não me parece acontecer na sociedade política ou nos partidos. Quando comparamos modelos temos de os comparar no seu todo e não só em parte. No post acima a autora comparou parcialmente o feudalismo com a nossa sociedade actual e concluiu a partir das partes que lhe pareciam semelhantes, esquecendo todas as outras que não o eram.
    Se eu usar o mesmo método também posso concluir que a nossa sociedade actual é comparável à República Romana, já que com ela também podemos encontrar inúmeras afinidades, nomeadamente a pratica do “clientelismo”.
    Isto porque nos referimos essencialmente a praticas comportamentais desenvolvidas pelos humanos na sua interacção em sociedade, praticas essas que são universais e intemporais e que, de uma ou outra forma se repetem.
    A História por si só não pode explicar um problema como o nosso se não for cruzada com todo o universo das ciências sociais, tal como por exemplo a economia nunca será a panaceia para os nossos problemas, ainda que de momento eles aparentem ser apenas de base económica.
    Qualquer problema social complexo, do tipo do nosso, só poderá ser solucionado quando analisado pelos pontos de vista do conjunto das ciências sociais, Antropologia, Sociologia, História, Psicologia, Economia e Ciência Política. E sobretudo com elevado rigor na análise e na conclusão.

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  4. Rui BG 13 October 2010 at 19:32 #

    Caro Lopo.
    Só agora li o seu último parágrafo e não posso concordar consigo.
    Desafio-o para um pequeno exercício prático de aplicação do método de Hondt que, ao contrário do que se vem afirmando, beneficia os pequenos partidos. Aliás ele foi criado com o propósito de permitir uma melhor e mais justa distribuição dos mandatos.
    Se pegar na votação das últimas eleições legislativas e lhe aplicar um universo de 180 mandatos disponíveis ao invés dos 230, irá chegar mais ou menos a esta conclusão em que o primeiro número se refere aos 230 e o segundo aos 180:
    PS 97 (42,92%) contra 71 (40,34%)
    PSD 77 (34,07% contra 58 (32,95%)
    CDS 21 (9,29%) contra 18 (10,23%)
    BE 16 (7,08%) contra 17 (9,66%)
    PCP 15 (6,64%) contra 12 (6,82%)
    Todos os partidos perdem deputados à excepção do BE e todos os pequenos partidos crescem em termos de representatividade. Só os grandes perdem…
    O contrário é uma profunda mentira que foi posta a circular por alguns opinion makers e na qual eu próprio também comecei por acreditar… mas depois fiz as contas. Vários fizemos as contas…
    Na página da redução de deputados pode encontrar mais dados sobre este tema: http://www.facebook.com/topic.php?uid=113200262025171&topic=149

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  5. Lopo Lencastre de Almeida
    Lopo Lencastre de Almeida 6 January 2011 at 12:31 #

    A questão é que as suas contas implicam a obrigação de mudar mais do que somente o número de deputados.
    Se bem entendi o Alexandre Catarino fez as contas mantendo tudo na mesma em termos de circulos eleitorais e os resultados foram mais ou menos os mesmos. Logo temos de pensar porque raio os pequenos partidos não querem diminuir deputados.

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